O Encontro

Conto por Bianca Oliveira

Parte I – Alan
Era uma terça-feira comum, levantei às 6h da manhã, passei o café, enchi meu copo térmico e fui para o terminal central.
Pegava sempre o mesmo ônibus, mesmo horário e as mesmas pessoas. Todas seguindo o ritmo frenético das grandes cidades.
No meu fone de ouvido tocando RHCP, eu me sentia ótimo, tive uma noite de sono tranquila depois de dias de insônia, que antecederam a entrega do meu projeto a diretoria.
Estou distraído, pesquisando no Kindle a minha próxima leitura. Desta vez quero uma ficção, tento sempre revezar entre romances, autobiografias ou auto ajuda.
Chego no portão de embarque, como sempre, tem fila para entrar.
Nessas horas me arrependo de não ir de carro, mas lembro que o trânsito é infernal e que estou contribuindo com o meio ambiente. Rio sozinho, pensando na ironia disso por um momento.
Não me dou ao trabalho de procurar assento, sei que irá lotar. Então me dirijo ao centro do ônibus, onde não ficarei atrapalhando a passagem.
Por um momento tiro os olhos da tela e então os vejo, vindo em minha direção, aqueles olhos castanhos, sorrindo.
Olhos que brilham e acendem meu peito. A dona deles pára na minha frente, a uma pequena distância.
Percebo que a estou encarando e abaixo a cabeça, não quero deixá-la desconfortável.
Noto que ela balança de leve a cabeça, curtindo uma música em seu fone de ouvido, imersa em seus pensamentos.
O ônibus dá uma freada brusca, ela perde o equilíbrio e, por reflexo, se apoia em meu ombro.
Noto sua bochecha corar quando me pede desculpas e sorri timidamente. Só consigo devolver o sorriso e resmungar um “sem problemas”.
Mas sinto uma eletricidade entre nós e um brilho em seus olhos. Será minha imaginação ou ela sentiu algo também?
Tento manter contato visual e ela parece retribuir.
Após algumas trocas de olhares, ela sorri e eu também. Nesse momento sinto um calor em meu peito, meus batimentos aceleram e me falta o ar.
Me pergunto como posso estar sentindo isso novamente, depois de tantos anos.
Percebo que fico perdido nesses questionamentos e quase não vejo meu ponto de desembarque. E, nesse momento, me bate o desespero, pois não a verei mais.
Para meu deleite ela faz sinal de descer no mesmo ponto. Terei mais uma chance.
Ela desce primeiro, logo após uma senhora se coloca entre nós e desce também. Sem problemas, ainda há tempo.
Quando coloco meus pés na calçada, ouço um forte estampido, perco a consciência e desapareço no vazio.
E foi assim que conheci minha alma gêmea, no dia da minha morte!
Parte II – Laura
Abro os olhos ouvindo aquele barulho irritante e agudo. Estico o braço até o aparelhinho infernal que me desperta todas as manhãs e o desligo.
Começo a minha rotina matinal: banho, higiene bucal, vestir meu jeans surrado e camiseta branca. – Thanks God por não precisar usar terno e salto alto – é uma das coisas que mais amo no meu atual emprego.
Olho o celular e vejo uma mensagem já cedo da minha amiga e chefe, Mara, perguntando se aceitarei a sua proposta par abrir uma nova filial da empresa em outro estado.
Estou pensando em como dizer que não irei, não é que não goste da ideia, seria uma tremenda guinada na minha carreira, mas não me sinto pronta e ela está dando crédito demais para mim.
Fora que ficar tantos km longe da mãe e da maninha me deixa insegura, não sei se darei conta.
Droga! A hora passou tão rápido, tenho que correr para o terminal ou perco o ônibus.
Como sempre, ônibus lotado, mas consigo subir no último minuto. Coloco meu fone de ouvido, minha fuga do barulho e conversas ao redor. Está tocando Alanis, uma das minhas preferidas dela e rio ao lembrar das palavras do meu melhor amigo: “Sua playlist entrega sua idade!”.
Assim que passo pela catraca percebo a minha frente um par de olhos azuis me olhando, sinto um arrepio e instintivamente paro no corredor ao lado dele, me apoio no acento mais próximo e abaixo a cabeça, não consigo o olhar diretamente, não tenho tanta segurança para isso. O admiro de canto de olho, ele tem um maxilar perfeito.
Para minha surpresa ele está olhando para mim, o que eu custo a acreditar, não sou responsável por causar esse tipo de reação nos homens.
O olhar dele me dá um sentimento bom, sinto um calor desconcertante que transborda num sorriso e ele parece ter notado, pois sorriu de volta.
Me pergunto se isso está acontecendo mesmo ou se estou tão encantada que acabei romantizando tudo e criando uma fanfic na minha cabeça. Na verdade ele deve estar se perguntando: “Por que essa guria está me olhando¿ É louca¿”
Fico confabulando sobre isso e quase perco meu ponto, mas tive a sorte que já haviam solicitado a parada.
Exulto quando noto que ele vai descer no mesmo local. Certo, mas terei coragem de puxar assunto com ele¿ Óbvio que não!! Não vou me enganar.
Desço do ônibus e o máximo que conseguirei fazer é andar a passos lentos para que ele me alcance e passe por mim, quem sabe ele toma iniciativa¿
Olho para trás e o vejo descendo do ônibus, nesse momento escuto um estampido e no mesmo instante ele desabafa ao chão, onde forma uma poça de sangue. Os olhos vidrados e sem brilho.
O tempo para e só consigo sentir o caos da correria e gritaria das pessoas ao meu redor, então tudo fica escuro.
Horas depois estou no carro de Mara, sem saber como cheguei até ali ou como ela me encontrou.
Na minha mente tem apenas a luz dos olhos azuis dele se apagando e a percepção de como a vida é efêmera e única.
Toco no ombro da minha amiga ao meu lado e a única frase que consigo balbuciar no momento é “Eu aceito a sua proposta!”

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