Mundo Paralelo

Conto por Bianca Oliveira

Abro os olhos e estou num ambiente estranho, o céu é vermelho, sem nuvens, essa cor toma todo o ambiente, invade as frestas e janelas dos prédios.
O ar é pesado, com uma fumaça leve como neblina, mas que impede a visão panorâmica. As construções são todas escuras, predominantemente pretas, de onde saem fumaças negras, poluindo o ar.
Ouço gemidos agoniantes ao redor, vindo de todas direções. Posso sentir a dor deles nos meus ossos. O clima é quente, não como um dia ensolarado, mas como se o corpo ardesse em febre.
Abro os olhos e estou num ambiente estranho, o céu é vermelho, sem nuvens, essa cor toma todo o ambiente, invade as frestas e janelas dos prédios.
O ar é pesado, com uma fumaça leve como neblina, mas que impede a visão panorâmica. As construções são todas escuras, predominantemente pretas, de onde saem fumaças negras, poluindo o ar.
Ouço gemidos agoniantes ao redor, vindo de todas direções. Posso sentir a dor deles nos meus ossos. O clima é quente, não como um dia ensolarado, mas como se o corpo ardesse em febre.
Minha respiração está pesada e meus batimentos acelerados, como se algo ruim fosse acontecer a qualquer momento. Todos meus instintos estão dando sinal de alerta. Sinto que preciso sair daqui o mais rápido possível.
Vejo vultos se movendo e consigo visualizar uma garota, que veste roupas escuras, que identifico como uma mini saia e meia calça preta, cabelo preto e corte chanel.
Ainda estou confusa, mas tenho a intuição que ela não causa perigo, talvez até me ajude a sair desse lugar, ou, quem sabe, ela precise que eu a ajude. É um sentimento indecifrável.
Mas a grande questão é como sair. Parece um grande labirinto, em que toda direção dará sempre no mesmo lugar.
Entro no prédio a minha frente e me deparo com maquinários gigantes, movidos a engrenagens que mantêm enormes maquinas de torturas em movimento. Tudo aqui me lembrou as salas de caldeiras dos navios do começo do século XX, asfixiante.
Corro para fora e no mesmo instante o chão começa a tremer, ouço um barulho de metal sendo arrastado. Surge em minha frente, a uns quinhentos metros de distância, uma criatura monstruosa, com mais de dois metros de altura e estrutura física de um halterofilista, arrastando uma foice gigante, quase maior que ele. Minhas pernas travam, como se meu corpo sentisse o perigo antes mesmo do meu cérebro raciocinar.
Ele olha para mim, franze a testa, onde tem um terceiro olho e começa a girar acima da sua cabeça, a enorme foice, que está presa a uma longa corrente.
A última visão que tenho é de um vulto passando em grande velocidade entre nós. Foi apenas o tempo de um piscar de olhos. Quando os abri estava em um lugar ermo, não havia nada além de um rio congelado, rodeado por árvores cobertas de neve e planícies. E, bem próxima ao meu rosto, a garota de corte chanel me encarando, sentia sua respiração na minha face. Seus olhos eram redondos e com pupilas diminutas, como olhos de gatos, de um verde profundo. Novamente, não senti medo, mas conforto e senti meus instintos aquietarem.
Parecendo ler meus pensamentos, ela se empenha em fazer um resumo do ocorrido. Seu nome é Erica e ela vive aqui a mais de três anos. Disse que o lugar de onde escapamos é chamado de Capital da Tortura, pois é para onde vão as almas recém chegadas e as Almas Penadas, que são todos que se negaram a seguir as ordens do Grande Oráculo – ditador que se nomeia o Chefe de todas as criaturas mortas – e que, também, têm envolvimento com o Revida, um grupo de revolucionários que tem como meta, derrubar o Grande Oráculo do poder.
Erica me convida a ir com ela para um dos refúgios do Revida, o que aceito sem questionar, ainda estou digerindo o que acabei de saber e acho que nem caiu a ficha.
As instalações são no subsolo, o alçapão de entrada está tão bem camuflado no gelo, que eu nunca teria notado sozinha. É uma estrutura impressionante, moradias feitas em grandes perfurações nas paredes de terra, parecendo formigueiros gigantes, todos conectados ao centro, de onde saem elevadores, que são usados como meio de transporte entre elas e, na parte central, fica o comando da comunidade, uma grande esfera feita de barro, com duas portas nas extremidades opostas.
É para onde Erica me leva. Devo falar com a líder e ser apresentada.
Lilith é uma mulher com aparentes quarenta anos, pele escura como a noite, cabelos presos em uma trança que chega a sua cintura, tem uma fisionomia dura e um olhar avaliador.
A primeira pergunta que faço é se realmente estou morta e por que não lembro disso. Com muita paciência ela me explica que agora sou uma alma vagante e estou no Mundo dos Mortos. Diz que tenho sorte por ter cruzado o caminho de Erica antes dos Devastadores – cães de caça do Grande Oráculo – me farejarem.
Fico sabendo que minha salvadora estava lá procurando um Armador que havia partido em missão e não voltou no horário determinado. Armador é como chamam os responsáveis por fazer reconhecimento local, antes de qualquer missão em campo.
Lilith deixa claro que há uma hierarquia no grupo, com o único objetivo de manter a ordem e organização e que é tudo baseado na democracia, destacando que a maioria dos cargos são preenchidos por voluntários. Sou considerada bem-vinda à comunidade, mas devo contribuir com algum serviço, que posso escolher com liberdade e as opções são variadas, desde ajudar na organização e limpeza, até fazer parte da guerrilha armada.
A líder me conta tudo que sabe sobre o mundo dos mortos. Em resumo, ele é dividido entre a Capital da Tortura, que é o local onde acordei e está instalado o QG de onde o Grande Oráculo comanda tudo e, também, a grande mansão que é sua habitação principal. E a Grande Vastidão, onde estamos, que é predominantemente formado de planícies, montanhas, rios e árvores cobertos por neve e gelo, um inverno eterno. Ou seja, o mundo é divido ao sul por um calor infernal e ao norte um frio de doer os ossos.
Elas me instalam em um pequeno quarto e me acalmam informando que posso levar o tempo que precisar para digerir tudo e me adaptar a minha nova realidade. Me informam que em pouco tempo recuperarei a memória total da minha existência no mundo dos vivos. Dizem que isso será importante para minha atual situação.
Cinco anos se passaram desse fatídico dia e estou aqui, sentada na mesma cama, tentando relembrar dos detalhes da nossa história desde então. Porque a dois dias Lilith me pediu que escrevesse tudo que temos vivido em um livro. Fui reticente a princípio, pois nunca escrevi mais que duas páginas de um resumo, na minha aula de história na escola. Mas ela acredita que precisamos criar evidências de nossa luta para os novos integrantes que se juntarem a causa, de forma a eternizar e manter viva a Revolução Revida. Confesso que ver a empolgação dela me contagia a querer fazer acontecer.
Apesar das baixas que tivemos nesses anos e das batalhas perdidas, ainda mantemos a fé na vitória. E, como atual comandante da Guerrilha, sou responsável por manter a moral dos soldados firme.
Reviver tudo isso, me faz sentir gratidão pela família que encontrei aqui, algo que nunca tive no mundo dos vivos. Surpreendentemente, encontrei minha vivacidade e realização no Mundo dos Mortos.

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